Coluna de Carlos Ayres Britto: Erário rima com sacrário

É de Albert Einstein este categórico juízo: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”. De Mário Quintana, esta conhecida metáfora: “A imaginação é a memória que enlouqueceu”.

Pelo que passei a imaginar como a “Ética” escreveria um texto sobre si mesma, no torvelinho da atual quadra histórica do Brasil. Deu nos escritos que seguem:

“Ética é meu nome. Ora me chamam de “ciência da moral”, ora de “moral” mesma. Seja como for, o que me define é ser a única trilha para a conduta das pessoas de caráter. Aquelas que são unha e carne com a verdade. Mais até, aquelas pessoas que têm como primeira religião o total respeito pelo que pertence a terceiros.

Em especial, o completo, o devocional respeito pelos “dinheiros, bens e valores públicos” (parágrafo único do art. 70 da Constituição brasileira). Com o que desponta clara a rima entre erário e sacrário.
Ser dura na queda é outra das minhas caraterísticas. Radicalizo na afirmação: eu não desisto nunca! Eu nunca jogo a toalha!

O pugilato é o ar que respiro, porque sempre me puxam o tapete. Sempre há quem viva para me ver morta. Eu ali muito abaixo dos sete palmos de chão. Mesmo sabendo, meus inimigos, que não vim ao mundo para servir de pasto aos vermes. Ainda que sabendo, meus antagonistas, que sou o oposto da lama, do visgo, do sujo, do lodo.

Mesmo sabendo cada um deles que só existo, tal qual o poeta Castro Alves, para fitar os Andes. Eu, irmã e ímã do sol a pino. Eu, arquiteta da fronde das árvores, engenheira das mais altas varandas da consciência.

Por isso que tenho tudo a ver com vergonha na cara. Por isso é que tenho sangue nas veias e vontade de ferro. Persistência em mim é como tatuagem na alma. Não vou desistir jamais de um dia chegar à porta dessa imensa casa de nome “Política”, para encontrar o quê? Uma placa de “Entre sem bater”. Não como cortesia dela, porém como direito meu.

Direito meu? Assim está na cabeça do art. 37 da Constituição, entre muitos outros dispositivos dela. Donde a consequência de que parlamentos e tribunais não têm como deixar de me reconhecer e aplicar.

Os que me derem as costas irão bater de frente com as mais claras e vigorosas normas constitucionais. Todas mais e mais acessíveis ao direto entendimento do povo, porque também mais e mais familiarizado com elas.

O povo, sim, pois finalmente o Brasil já surfa na crista de uma era que o jurista alemão Peter Häberle bem etiquetou como “A Sociedade Aberta dos Intérpretes da Constituição”. Todo o povo, sim -falo pela segunda vez-, pela percepção de que eu sou um princípio-dever do Estado e um correlato princípio-direito dos cidadãos. Dever de lá, direito de cá.

Falo um pouco mais de mim. Isso para ajuntar que só ali onde eu impero é que há vida social civilizada. Que o meu desafio maior, estruturalmente falando, é dinamitar as vigas todas desse tal de “patrimonialismo”. Persistente ninho desta venenosa serpente de três cabeças: corrupção sistêmica, desperdício desbragado de tudo que é dinheiro do Estado, corporativismo.

Por isso que devo insistir: meu nome é “Ética”. Se você tem identidade comigo, abanque-se. Venha sentar-se a meu lado e ser ‘um comigo’. Um só corpo, uma só consciência, uma só alma. Assim é que o mais cristalino espelho da história passará a refletir o unitário rosto de quem já não tem o menor motivo para corar de vergonha.

Concluo esta minha fala com um outro pensamento de Einstein: ‘Quando a mente humana se abre para uma nova ideia, impossível retornar ao tamanho inicial’. Digo o mesmo quanto à ideia coletiva de que eu vim para ficar. Ideia coletiva, essa, de que farei o meu escudo, o meu aríete, a minha catapulta.

Aqui e em todo lugar onde o direito vier a me consagrar como uma das suas mais fortes razões de se dar ao respeito. Como verdadeira condição e elemento conceitual da própria Justiça”.

Pronto! Nada mais disse a minha imaginação nem lhe foi perguntado. Mas não posso deixar de acrescentar que foi precisamente a ética o núcleo denso desta sentença de Thomas Jefferson: “A arte de governar consiste exclusivamente na arte de ser honesto”.

(*) Ex-ministro do STF

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