Montagem simula como seria JP atingida por asteroides; evento alerta para tema

Quanto mais conhecemos os segredos do Universo, mais percebemos como somos pequenos diante da infinidade de corpos celestes gigantescos que nos rodeiam. Alguns desses, inclusive, podem representar ameaça para nossa existência. É o caso dos asteroides. Para chamar a atenção para este tema e promover a divulgação do ‘Asteroid Day’ (Dia do Asteroide), evento que debate o tema (confira detalhes mais abaixo), a Associação Paraibana de Astronomia (APA), por meio das redes sociais, fez uma montagem simulando o resultado do impacto de um corpo rochoso desses de ‘apenas’ 50 metros de diâmetro sobre uma cidade como João Pessoa. 

A imagem é baseada na cratera de Barringer, localizada no estado do Arizona (EUA), que tem mais de um quilômetro de diâmetro e 200 metros de profundidade. Apesar de visivelmente já demonstrar uma imensa devastação sobre a cidade, os estragos de um impacto como esse seriam muito maiores e, certamente, muito pouco ou talvez nada da capital paraibana resistisse intacto. É o que relata em entrevista ao Portal Correio o astrônomo Marcelo Zurita, membro da APA e da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (Bramon), que esclarece detalhes e traz curiosidades sobre a dinâmica desses objetos espaciais.

Como se classificam os asteroides ou objetos de natureza semelhante e do que são compostos?

A questão da terminologia é simples. Existem três tipos de objetos menores em órbita do Sol: cometas, asteroides e meteoroides. 

Um cometa é um corpo sólido composto basicamente de poeira, gelo e gases congelados. Quando se aproxima do Sol, seu gelo e gases congelados sublimam (viram gás) e são lançados no espaço, formando uma cauda e deixando um rastro de poeira em torno de sua órbita. 

Um asteroide é um corpo sólido composto de rocha e/ou metal e pode ter de um metro a centenas de quilômetros de diâmetro. 

Meteoroides são corpos sólidos menores que um metro de diâmetro. Quando atingem a atmosfera terrestre, os meteoroides deixam rastros luminosos que são conhecidos como meteoros e duram apenas uma fração de segundo. Quando um meteoroide resiste à passagem atmosférica e atinge o solo, temos um meteorito. Ou seja, um meteorito nada mais é que um fragmento de rocha espacial que sobreviveu à passagem atmosférica.

Quais os riscos de choque com a superfície terrestre?

O risco de impacto com a Terra é inversamente proporcional ao tamanho do objeto. Estima-se que cerca de 100 toneladas de fragmentos espaciais atinjam a Terra diariamente. A maioria dos fragmentos é de tamanho inferior a um milímetro de diâmetro. Com base em dados estatísticos, estima-se que um fragmento de um milímetro atinja a Terra a cada 30 segundos, de um metro a cada ano e de 100 metros de diâmetro a cada 100 mil anos. 

A partir de que tamanho podemos considerar que um corpo celeste como um asteroide é perigoso para a Terra? Com que tamanho se entende que poderia haver extinção da vida como conhecemos?

Existe uma comunidade de astrônomos profissionais e amadores em todo o mundo que trabalha monitorando objetos próximos à Terra ou NEOs (Near Earth Objects). Todos os objetos são catalogados e é atribuída uma classificação de risco em função de uma escala conhecida como Escala de Turim (N. R.: que vai de 0 - nenhum perigo iminente, ao nível 10 - colisão global capaz de alterar todo o clima do planeta, causando catástrofes mundiais), que atribui o nível de risco em função do tamanho e da probabilidade do objeto atingir a Terra.

Pela escala de Turim, considera-se que o impacto com a Terra de objetos maiores que um quilômetro poderia afetar todo o planeta, inclusive, em certas condições, causando a extinção da espécie humana. Objetos entre 100 metros e um quilômetro de diâmetro são considerados potencialmente perigosos, podendo causar devastação localizada em terra ou um ‘megatsunami’ se ocorrer no mar. O impacto de objetos entre um e 100 metros são capazes de causar destruição localizada em terra ou um tsunami se caírem no mar. Objetos com menos de um metro não são considerados perigosos, uma vez que nossa atmosfera deve consumir grande parte de suas massas antes de atingirem o solo. É claro que, se atingir uma pessoa, mesmo um meteorito de poucos gramas é capaz de matar. Mas a probabilidade disso ocorrer é tão remota que não é considerada pelos estudiosos. Até hoje não há registros na história de uma pessoa que tenha morrido por ser atingida por um meteorito.

Só para se fazer um paralelo, qual o tamanho do asteroide ao qual é atribuída a extinção dos dinossauros? A extinção imaginada foi imediata ou houve um período de mudanças?

Existem evidências conclusivas para afirmar que a extinção dos dinossauros ocorreu devido ao impacto de um asteroide, de cerca de 10 km de diâmetro, ocorrido na Península de Iucatã, no México, há 66 milhões de anos. Não só os dinossauros, mas grande parte da vida na Terra foi extinta em decorrência desse impacto. Em um raio de cerca de 1.000 km a extinção foi quase que instantânea em função da nuvem de gás tóxico e aquecido que foi lançada na atmosfera. Os gases tóxicos, terremotos, erupções vulcânicas e os incêndios que se espalharam por todo o globo cobriram a superfície da Terra por vários anos, provocando uma espécie de efeito estufa. A maioria das plantas e animais que sobreviveram ao impacto padeceu diante das condições extremamente adversas enfrentadas após a catástrofe. 

Na montagem da cratera dos EUA em João Pessoa, o impacto foi de um asteroide de 50 metros. Quais seriam os estragos de um corpo celeste como este?

Na fotomontagem, a cratera de Barringer foi cuidadosamente colocada no meio da cidade, mas se um asteroide de 50 metros explodisse sobre João Pessoa, os eventos seriam bem mais catastróficos. Para termos uma ideia, basta olhar o estrago feito pelas bombas atômicas americanas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki e tentar imaginar o que ocorreria se a explosão fosse 600 vezes mais potente. 

A onda de choque provavelmente devastaria tudo em um raio de 20 km do local do impacto. Prédios e árvores seriam derrubados como se fossem feitos de papel e incêndios de grandes proporções tomariam conta do que sobrasse em solo. Choveriam escombros da cidade durante vários minutos em várias partes do estado. A terra iria tremer a centenas, talvez milhares de quilômetros de distância. Nuvens de gases e fumaça ejetados com o impacto iriam se propagar ao sabor do vento, produzindo chuvas tóxicas que poluiriam os rios e iriam interferir na agropecuária da região por vários meses. 

Acredito que poderia haver sobreviventes em regiões próximas ao impacto, mas certamente não seria simples resgatá-los em uma cidade devastada, em chamas, sem ruas e com o espaço aéreo completamente encoberto por fumaça. 

Como poderia ser a vida na Terra depois disso?

Um evento de impacto desse porte em área urbana não acabaria com a vida na Terra, mas encerraria drasticamente a história de milhares, talvez milhões de pessoas. E talvez servisse de alerta para que as autoridades do mundo inteiro dessem mais atenção para o risco que vem do espaço. Nosso maior objetivo, com o Asteroid Day, é conseguir essa atenção sem precisar que passemos por algo assim.

O que você imagina que possíveis sobreviventes poderiam fazer para ‘recuperar a vida’ na Terra depois de um impacto com danos globais? 

Algo em que o ser humano já provou ser muito bom é em sobreviver. É interessante isso, porque somos animais relativamente frágeis, mas ao mesmo tempo extremamente preparados para sobreviver às condições mais adversas. Acredito que se ocorresse hoje um evento de grandes proporções como o que ocorreu a 66 milhões de anos, o ser humano estaria entre as espécies sobreviventes graças à sua inteligência e a essa capacidade de sobreviver em condições adversas. 

Certamente, os sobreviventes do impacto iriam iniciar uma longa e dura jornada pela vida. Em um primeiro momento, só sobreviveriam aqueles que tivessem acesso a um ar minimamente respirável. Talvez fôssemos forçados a voltar para as cavernas, onde teríamos acesso a uma boa quantidade de ar puro para suportar os primeiros dias após a catástrofe. 

O próximo desafio seria conseguir água potável. No início, é possível que se encontre ainda entre os escombros, mas na medida em que a chuvas fossem limpando o ar, iriam também poluindo os rios e todas as fontes de água potável. Nesse momento, precisaríamos usar nossa engenhosidade para purificar a água ou extraí-la de onde ela ainda poderia estar pura, como em geleiras.

Aos poucos que tiverem ar para respirar e água para beber, restaria o desafio de buscar por alimento pelo resto dos dias de suas vidas. E aos casais que tivessem a sorte de se encontrar, caberia a responsabilidade de repovoar a nova Terra (isso daria um bom filme!).

Já aconteceu algum impacto relevante na Terra depois do desenvolvimento das civilizações modernas?

O maior impacto da história recente da Terra ocorreu em 30 de junho de 1908, em Tunguska, na Sibéria. Um objeto com tamanho estimado entre 50 e 100 metros explodiu a cerca de 10 km de altitude, liberando uma energia equivalente a 1.000 bombas de Hiroshima. Mais de dois mil quilômetros quadrados de floresta foram completamente devastados. Para se ter ideia do que isso significa, nessa área caberiam juntas as regiões metropolitanas de todas as capitais do Nordeste. Felizmente, a região de Tunguska era desabitada. Mas os moradores de regiões a até 650 km do local do impacto foram afetados pela onda de choque gerada pela explosão. 

Um impacto como esse de Tunguska seria capaz de devastar uma metrópole como São Paulo. E o objeto que provocou não é dos maiores. Por esse motivo o Asteroid Day é celebrado no dia 30 de junho, a mesma data do impacto de Tunguska. É preciso conscientizar a todos que esse é um risco real e que precisamos agir já para evitar impactos dessa proporção ou, ao menos, reduzir os danos e as mortes que eles podem causar.

Atualmente há motivos para se temer?

Não existe nenhuma razão para temer, mas não podemos mais ignorar o assunto. O que causa maior preocupação a esse respeito entre os astrônomos não são os asteroides, e sim a inércia e até mesmo o desconhecimento dos governos em relação ao assunto.

O que vem sendo feito de pesquisas para defesa?

Existe uma comunidade de astrônomos do mundo inteiro que monitora os céus em busca de objetos próximos à Terra. O principal objetivo do trabalho é buscar o conhecimento a respeito desses objetos e conseguir detectar com antecedência se algum deles irá impactar com a Terra. O que é louvável, e ao mesmo tempo assustador, é perceber que grande parte desses astrônomos fazem esse trabalho de forma voluntária, sem qualquer tipo de remuneração ou subsídio governamental. Um bom exemplo é o Observatório Sonear, em Minas Gerais. Ele é, no mundo, o observatório amador que mais descobre objetos próximos à Terra nos últimos três anos, mas é mantido exclusivamente com recursos próprios. Não tem nenhum tipo de apoio ou recurso governamental. O resultado de tanto descaso fica claro na estimativa feita pelos próprios astrônomos, de que não conhecemos mais do que 1% dos asteroides que podem impactar a Terra. Ou seja, se amanhã um grande asteroide cair sobre uma grande cidade, é bem provável que saibamos dele apenas quando já for tarde demais. 

Asteroid Day

Trata-se de uma mobilização internacional educativa realizada anualmente no aniversário, como já foi dito anteriormente, do maior impacto asteroidal da Terra na história recente, o evento de Tunguska em 1908. O Asteroid Day foi co-fundado em 2014 pelo cineasta Grig Richters, pela chefe de negócios do Vale do Silício (EUA), Danica Remy, pelo astronauta da Apollo 9 Rusty Schweickart, e pelo Dr. Brian May, astrofísico e guitarrista da banda Queen.

A data de 30 de junho foi reconhecida em dezembro de 2016 pela Assembleia Geral das Nações Unidas como o Dia Internacional do Asteroide. Nesse dia o mundo todo prepara eventos que explicam as ameaças que esses objetos espaciais podem gerar e o que pode ser feito para impedir novos impactos, visando conscientizar governos e a população sobre o investimento em estudos nesta área. Essa data também pode ser aproveitada para explicar melhor, através de diversas atividades, sobre os pequenos corpos celestes que existem no Sistema Solar e como podemos observá-los e entender suas características.

Marcelo Zurita coordena os eventos do Asteroid Day no Nordeste brasileiro com o apoio da Associação Paraibana de Astronomia, da Rede Brasileira de Observação de Meteoros e do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Astronomia do Instituto Federal da Paraíba. Segundo o astrônomo, diversas ações estão programadas em várias cidades brasileiras, além dos eventos virtuais, que são acessíveis através da internet. Entre eles há uma ‘Live’ que ocorrerá às 20h30 do dia 30 de junho através do canal SpaceToday no Youtube. Os eventos agendados em todo o mundo podem ser vistos neste link. 

Em João Pessoa, entre os eventos programados, destacam-se:

* Zarinha Centro de Cultura - Entre 9h e 12h. Haverá palestras, exposição virtual, sessão de filmes relacionados ao tema e uma conversa (por teleconferência) com a astronauta americana Nicole Stott. A Associação Paraibana de Astronomia irá selecionar perguntas entre o público para serem feitas à astronauta, que já participou do programa dos ônibus espaciais da NASA e de duas missões espaciais a bordo da Estação Espacial Internacional.

* Espaço Cultural José Lins Do Rego - entre 19h e 22h. Haverá palestras, exposição de fotomontagens e modelos de asteroides, exposição de meteoritos, sessão de planetário e uma participação ao vivo na ‘Live’ do Asteroid Day do Space Today.

O Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko ficou famoso após receber a visita da sonda espacial Rosetta, da Agência Espacial Europeia, entre 2014 e 2016. Como todo cometa, é composto de gelo, poeira e gases congelados que sublimam quando se aproximam do Sol, formando sua cauda. Com seus 4 km de diâmetro, seria capaz de provocar eventos catastróficos com abrangência global caso viesse a se chocar com nosso planeta.

Felizmente, esse cometa não representa risco algum para a Terra, pois sua órbita ao redor do Sol não passa perto da órbita terrestre. Nesta imagem, ele foi inserido cuidadosamente no mar de Manaíra, uma das praias mais conhecidas da Orla de João Pessoa, na Paraíba. Seu tamanho assusta. Se estivesse aí realmente seria o ponto mais alto do estado e um dos mais altos do Brasil.


Em 15 de fevereiro de 2013, um asteroide de aproximadamente 10 mil toneladas e cerca de 20 metros de diâmetro explodiu sobre a cidade russa de Chelyabinsk. A explosão liberou uma energia de 500 quilotons, o equivalente a quase 40 bombas de Hiroshima. Felizmente, o evento não produziu danos significativos na cidade. Entretanto, o deslocamento de ar provocado pela explosão estilhaçou vidraças, derrubou alguns prédios e feriu mais de 1.000 pessoas em solo.

O evento de Chelyabinsk é o maior impacto registrado nos últimos 50 anos na Terra. E o fato deste asteroide não ter sido percebido antes do seu encontro com a Terra é um exemplo de como precisamos melhorar nosso sistema de monitoramento para evitar que novos eventos desse porte possam causar destruição e perdas de vidas humanas. 

Nessa fotomontagem, uma representação de um asteroide com aproximadamente o mesmo tamanho do de Chelyabinsk foi colocada no adro da igreja de São Francisco, um dos principais pontos turísticos do Centro Histórico de João Pessoa.

O risco de impacto de um grande asteroide com a Terra é real. Sabemos que um dia ele acontecerá, mas ainda não sabemos quando, nem sabemos se poderemos evitar.


O Apophis, colocado na montagem no Centro de João Pessoa, é sem dúvida o asteroide que causa maior preocupação entre os astrônomos. Esse gigante de 325 metros causou um breve alvoroço na comunidade científica em dezembro de 2004 quando as observações iniciais indicavam uma possibilidade dele atingir a Terra em 2029.

Observações adicionais aumentaram a precisão das predições e eliminaram a possibilidade de impacto em 2029, embora ainda haja uma pequena probabilidade de que a iteração gravitacional possa colocá-lo em rota de colisão com a Terra em 2036.

Entretanto, se as nossas mais apuradas predições estiverem corretas, o maior risco para a Terra estará nos anos de 2068 e 2069, quando a previsão é que o Apophis passe a cerca de 120 km da superfície da Terra. O risco de impacto é muito grande. E se isso ocorrer, a energia liberada seria de aproximadamente 880 megatons, o que é algo tão absurdamente alto que é difícil encontrar comparação. Seria em torno de 70 mil vezes mais potente que a bomba de Hiroshima.

Um impacto dessa magnitude teria um efeito devastador. Produziria um tsunami de proporções inimagináveis se caísse no oceano, ou levaria a vida dezenas de milhões de pessoas se ocorresse em solo. O Apophis é um risco real. Não dar a atenção que ele merece é como brincar de roleta russa, é deixar a sorte definir o futuro da humanidade.

Portal Correio
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