Viúva diz durante o júri que relação entre vítima e acusado era conflituosa

A relação entre os médicos Artur Eugênio Pereira e Claudio Amaro Gomes, apontado como mandante do crime, era conflituosa. Foi o que afirmou a médica Carla Azevedo, viúva de Artur, na manhã desta quarta-feira (21), no primeiro dia do julgamento de dois dos cinco acusados de praticar o homicídio, em 2014.
O júri popular está sendo realizado no Fórum de Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, e deve durar sete dias. Carla foi a primeira testemunha a ser ouvida pela juíza Inês Maria de Albuquerque, que preside os trabalhos.
Estão diante do júri popular Cláudio Amaro Gomes Júnior e Lyferson Barbosa da Silva. Cláudio Júnior é filho do médico Cláudio Gomes. Lyferson seria um dos executores. Cláudio Gomes e Jailson Duarte César aguardam julgamento. Flávio Braz de Souza foi morto em uma troca de tiros com a Polícia Militar, em fevereiro de 2015.
Na abertura do julgamento, Carla Azevedo afirmou que a família não esperava essa atitude de Cláudio Amaro. Foi ele quem fez o convite para Artur trabalhar no Recife. A viúva declarou, no entanto, que outro médico já tinha alertado para o perigo das atitudes do cirurgião. "Ele me disse 'cuidado, esse homem é perigoso, diga pra Artur ter cuidado com ele'. Naquele momento, eu não entendi", desabafou.
Depois do depoimento, a viúva falou sobre o sentimento de perda. Segundo ela, é uma sensação de impotência muito grande não poder suprir a necessidade do seu filho. "O que deixa a gente um pouco mais resignada é a fé de que nada acontece por acaso. Eu entendo que Artur tinha que ir. Essa forma como aconteceu tinha um sentido, tinha um propósito que pra mim foi muito difícil de carregar,  mas a fé me ajuda a aceitar." [Veja vídeo abaixo]
Histórico
Carla e Artur, paraibanos, estavam morando em São Paulo, em 2010, quando Artur foi abordado por Cláudio Amaro. Ele o chamou para morar no Recife, integrando sua equipe de cirurgiões.
"A oportunidade de entrar no mercado de trabalho e passar a morar perto da familia era bem atraente", disse. Ainda em 2010, o médico passou a trabalhar no Recife e, em 2011, o casal se mudou definitivamente.
Segundo a viúva, os sinais de conflito começaram quando Artur percebeu divergências no modo de trabalho dos dois e saiu da sociedade que mantinha com Cláudio. No entanto, eles continuaram trabalhando juntos no Hospital das Clínicas, onde Artur passou a trabalhar após ser aprovado num concurso. Cláudio Amaro era o chefe imediato dele.
"Artur contava que não conseguia mais trabalhar. Não tinha mais equipamentos para fazer exames", disse Carla ao júri. A situação se agravou ainda mais, acrescentou a viúva, quando Cláudio deu notas baixíssimas a Artur, na avaliação do estágio probatório que ele realizava no hospital. "Ele procurou um advogado para processá-lo por danos morais, porque aquela situação manchava a reputação dele como médico", afirmou.
Mesmo assim, disse a viúva, ninguém esperava um crime como o que aconteceu. "Artur não era de briga. Era uma pessoa benquista, que se relacionava muito bem com 99,9% das pessoas", disse Carla Azevedo.
O julgamento
O julgamento teve início nesta quarta, uma semana depois de ser adiado por falta de advogados de defesa de um dos réus, Ao todo, serão ouvidas sete testemunhas. Duas foram arroladas pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE), uma pelo assistente de acusação e quatro pela defesa. Há, ainda, três peritos.
Está prevista a exibição em vídeo do depoimento de 24 testemunhas, requisitadas pelo MPPE e pelo assistente de acusação, e ouvidas durante as audiências de instrução, em 2014.
No início do júri, haverá a escolha de sete jurados, dentre os 25 convocados, e o depoimento das testemunhas de acusação, de defesa e de três peritos. Em seguida, será exibia a mídia com o depoimento das 24 testemunhas de acusação. Posteriormente, os réus serão interrogados.
Julgamento do Caso Artur começou nesta quarta-feira (21), em Jaboatão (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)
Julgamento do Caso Artur começou nesta quarta-feira (21), em Jaboatão (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)
Chegada
Antes do início dos trabalhos, o advogado de defesa de Cláudio Júnior, Luiz Miguel dos Santos, declarou que o adiamento do julgamento na semana opassada não foi provocado por um a armação. "Me senti ofendido, porque eu de fato estava doente. Jamais faria esse tipo de coisa para protelar uma decisão judicial", afirmou.
Segundo a promotora Dalva Cabral, o Ministério Público tem grande segurança em relação ao que está sendo apontado no processo. Ela afirma que há provas fortes contra Lyferson Barbosa da Silva.
"A gente tem uma entrevista da sogra contando a agonia que passou Artur Eugênio dizendo 'nao me mate, nao me mate' e o Lyferson dizendo 'aquela senhora é a minha sogra'. Acreditamos que hoje será feita justiça.", disse a promotora.
Adiamento
O julgamento deveria ter começado na quarta-feira (14). Duas horas depois de iniciados os trabalhos no fórum, no entanto, a juíza Inês Maria de Albuquerque Alves, da 1ª Vara do Tribunal do Júri do município, constatou que Cláudio Gomes Júnior estava sem representação formal de um advogado de defesa, o que é proibido pelas leis brasileiras.

De acordo com a juíza, Cláudio Júnior tinha três profissionais devidamente habilitados para patrocinar a defesa, até o início dos trabalhos. Às 9h, no entanto, apresentou o primeiro pedido para destituição do advogado Braz Batista Neto.
Em seguida, entregou uma petição para afastar também o advogado Anderson Flexa. Para esse caso, alegou motivos particulares para não contar mais com os trabalhados do defensor.
Às 9h21, o último representante legal habilitado, o advogado Luiz Miguel dos Santos, informou à juíza que não poderia participar do julgamento por questões de saúde. Apresentou atestados para comprovar problemas ortopédicos.
Por isso, a magistrada solicitou que um oficial de Justiça perguntasse ao réu quem seria o seu representante legal. Cláudio Júnior disse que contava apenas com os trabalhos de Luiz Muguel dos Santos e, portanto, estava sem advogado de defesa em condições de atuar no julgamento na quarta.
"Considerando que o único obstáculo para a realização do ato nesta data é atribuído ao acusado e ao seu advogado, nada obstante o esforço empreendido pelo Judiciário, não resta outra alternativa", anunciou a magistrada.
Julgamento do Caso Artur começou nesta quarta-feira (14), em Jaboatão (Foto: Dele Wanderley/TV Globo)
Julgamento do Caso Artur começou nesta quarta-feira (14), em Jaboatão (Foto: Dele Wanderley/TV Globo)
O caso
O médico Artur Eugênio foi assassinado a tiros, em 12 de maio de 2014. A polícia concluiu que o mandante do crime foi um colega de trabalho, o cirurgião Cláudio Gomes, que contou com a ajuda do filho, Cláudio Amaro Gomes Júnior, para executar o plano.
O cirurgião responderá por homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe e sem possibilidade de defesa da vítima. Já o filho dele vai responder pelo mesmo crime, além de furto qualificado e dano qualificado, pelo uso de substância inflamável.
Cláudio Júnior, por sua vez, teria chamado Jailson Duarte César para contratar os homens que cometeriam o assassinato: Lyferson Barbosa da Silva e Flávio Braz de Souza. Jailson e Lyferson também responderão por homicídio duplamente qualificado, além do crime de dano qualificado. Flávio foi morto em uma troca de tiros com a Polícia Militar, em fevereiro de 2015. Cláudio, Cláudio Júnior, Jailson e Lyferson estão presos.
A juíza Inês Maria de Albuquerque Alves decidiu pela realização do júri popular, em agosto de 2015. A decisão foi tomada a partir dos laudos periciais e das audiências de instrução e julgamento, realizadas entre 14 de outubro de 2014 e 10 de junho de 2015. Ao todo, foram ouvidas cerca de 60 testemunhas, além dos quatro réus.
Detalhes
O médico Cláudio Gomes e o filho foram acusados de planejar a morte do cirurgião Artur Eugênio de Azevedo, que foi arrastado por dois homens na entrada do prédio onde morava, em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, na noite de 12 de maio de 2014. O corpo dele foi encontrado no dia seguinte, com marcas de tiro, às margens da rodovia BR-101, em Jaboatão dos Guararapes.
O carro da vítima foi queimado e abandonado no bairro da Guabiraba, Zona Norte do Recife. As investigações apontam que Cláudio Gomes e Artur, que já trabalharam juntos, tinham divergências profissionais, o que teria motivado o crime.
Artur era paraibano e atuava no Hospital de Câncer de Pernambuco, Hospital das Clínicas, Imip e Português. Ele tinha família em Campina Grande e era formado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O médico era benquisto e descrito como uma pessoa calma - o corpo dele foi enterrado no dia 15 de maio de 2014, em Campina Grande.

Fonte:G1
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