Nome de turma de medicina na UFPB gera polêmica e notas de repúdio

O nome adotado para batizar uma turma do curso de medicina da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) está causando polêmica desde a terça-feira (16). O termo "dopasmina" foi registrado no uniforme do time de futebol da turma do 6º período do curso no campus de João Pessoa. O nome causou revolta nas redes sociais e entre estudantes que julgam que o termo faz apologia ao estupro e à violência contra a mulher. Estudantes da turma de medicina emitiram uma nota pedindo desculpas pelo uso do termo e prestando esclarecimentos sobre o ocorrido.
De acordo com o diretor do Centro de Ciências Médicas (CCM) da universidade, Eduardo Sérgio, há uma tradição de escolher um nome para as turmas de medicina. No primeiro período do curso, os alunos escolheram o termo “dopasmina” que, segundo um aluno da turma que não quis ser identificado, "surgiu a partir de uma escolha imatura, mas sem a intenção de fazer apologia ao estupro". Há um ano, a turma percebeu o equívoco e a possibilidade de que outras interpretações fossem feitas diante do termo. Portanto, mudaram o nome para “turma 99”, que permanece até hoje.
Conforme explicou o estudante, na última semana o campeonato de futebol que acontece internamente no CCM trouxe de volta o primeiro nome da turma, tendo em vista que o padrão utilizado nos jogos permanece o mesmo desde o primeiro período. Em comemoração aos jogos internos, o time espalhou cartazes nas paredes do Centro com a frase “melhor time do CCM: dopasmina”.

Segundo relatos dos estudantes da turma 99, tudo começou quando um professor do CCM, em uma reunião de docentes e discentes para assistir os Jogos Olímpicos, iniciou um discurso criticando o cartaz e o nome indicado pelos alunos.
“Foi uma escolha equivocada, mas não foi com a intenção de violência contra a mulher. Foi infeliz, admitimos, o nome realmente não foi legal”, revelou o estudante. “O nome realmente não poderia ter sido colocado, porque dava margem a dupla interpretação, uma escolha equivocada que foi revista e reconhecida pelos alunos. Sai uma lição positiva do cuidado que temos que ter com as palavras”, acrescentou o diretor do CCM, Eduardo Sérgio.
Em resposta aos cartazes e ao termo entendido por muitos como um desrespeito às mulheres, alguns coletivos feministas da UFPB emitiram uma nota de repúdio ao termo escolhido. A nota destaaca que “o trocadilho dopasmina é um termo bastante utilizado pelos estudantes de medicina de todo o país ao nomear festas e eventos onde ocorrem diversas tentativas e abusos sexuais às mulheres". "É notável a falta de empatia da turma com diversas vítimas e também com as colegas que, mais uma vez, se encontram a mercê do machismo e da cultura do estupro”, diz a nota.
Segundo a pesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Gênero e Mídia (GEM), da UFPB, Lívia Costa, essa atitude não pode ser vista como uma exceção. “A escolha do nome ‘dopasmina’ em referência à dopamina, substância química do organismo, é usado muito mais como uma valorização de ‘dopar as minas’, atitude de agressão muito recorrente nos campi universitários, onde homens se aproveitam de mulheres sob efeito do álcool, impossibilitadas de dizerem não. A cultura do estupro não é uma ficção”, disse.
Estudantes modificaram os cartazes expostos com o termo “dopasmina” para palavras como “respeitasmina” e “juntasmina”, pedindo respeito e união dentro da sociedade “e principalmente dentro do curso médico, para que novas atitudes machistas e opressoras não se reproduzam”.
De acordo com o estudante da turma 99, a turma vai tomar as medidas cabíveis. “Arquivamos os documentos. Nos chamaram de estupradores e divulgaram imagens não autorizadas”, disse. Em nota de esclarecimento, disseram que entendem a importância de combater a cultura do estupro e ratificaram que esse tipo de comportamento nunca foi defendido pela turma.
Para Lívia Costa, o estudo de gênero ainda é escasso nas universidades e isso daria margem para que casos como esses viessem à tona. “A UFPB é uma extensão da realidade social. Os alunos que estudam aqui chegam no campus sem nenhum estudo de gênero e mergulhados na cultura do patriarcado, por isso são reprodutores do machismo que está além dos muros da universidade. Seria crucial o ensino de gênero nas escolas de base e nas universidades como medida de combate ao machismo e para que atitudes como essa não voltassem a se repetir”, acredita.

Fonte:G1
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