'Estudei e voltei para ajudar', diz filho de assentado sobre produção agrícola

“Saí do assentamento, fui para a universidade, estudei e voltei mostrar que os assentamentos geram impacto na sociedade”. Rogério Leandro de Oliveira tem 32 anos e mora no projeto de assentamento Jaracateá, na cidade de Jacaraú, no Litoral Norte da Paraíba. Filho de assentados, ele cresceu no assentamento considerado um dos mais pobres do Brasil pela superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) na Paraíba.
Coordenador na Cooperativa da Agricultura e Serviços Técnicos do Litoral Paraibano (Coasp) e integrante da Comissão Pastoral da Terra, Rogério Oliveira lembra que a cidade grande depende diretamente da produção agrícola dos assentamentos e destaca que a melhoria da produção agrícola passa pela formação acadêmica dos assentados. “Consegui me formar em um curso técnico em agricultura em Sousa, depois em Ciências Agrárias pela UFPB e, em 2014, terminei uma pós-graduação em Agricultura Familiar Camponesa e Educação do Campo. Esse conhecimento acumulado me deu a oportunidade de voltar para o assentamento onde fui criado e tocar a cooperativa que abastece João Pessoa”, comentou.
O início da caminhada acadêmica de Rogério Oliveira só foi possível a partir do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), que completa 18 anos em 2016. O assentado explica que o curso técnico oferecido pelo Pronera permitiu que ele enxergasse a própria responsabilidade em aprimorar e melhorar a subsistência dos seus pais, em valorizar o trabalho feito nos assentamentos e nos movimentos de luta pela reforma agrária.

“O curso técnico do Pronera me abriu para uma visão diferente do mundo, fez com que eu participasse ativamente nas decisões politicas e sociais de minha região, fazendo com que contribuísse para assessoria direta de outras famílias e servisse de exemplo na animação para que outros jovens sigam também por esse caminho”, ressaltou. Conforme levantamento feito pelo Incra, até maio de 2016, 176 alunos estão estudando algum tipo de curso pelo Pronera na Paraíba.
Desde a sua criação no estado, em 1999, um ano depois da criação nacional, o Pronera formou 3.551 alunos em 23 cursos. São oferecidos pelo programa cursos de Educação de Jovens e Adultos (EJA), nas modalidades de alfabetização e escolarização dos anos iniciais; cursos técnicos profissionalizantes nas áreas de agropecuária, zootecnia, agroindústria e enfermagem; cursos normais de nível médio (magistério); cursos de graduação de licenciatura em história, ciências agrárias e pedagogia; e cursos de pós-graduação em residência agrária.
O ingresso nos cursos do Pronera acontece por meio de processo seletivo diferenciado destinado apenas a assentados da reforma agrária e do Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNFC) e seus dependentes, além de agricultores acampados, quilombolas, famílias de comunidades extrativistas e professores e educadores com atuação em áreas da reforma agrária. Para os cursos superiores, o público que pode participar da seleção é o mesmo, mas a seleção utiliza atualmente as notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Produção
A especialização do trabalho agrícola nos assentamentos tem gerado uma participação significativa no mercado de alimentos nas cidades. Conforme levantamento feito pelo Incra na Paraíba, boa parte dos alimentos produzidos nos assentamentos servem para abastecer 40 feiras agroecológicas, além das Ceasas de João Pessoa e de Recife, em Pernambuco. 
Ainda de acordo com o Incra, cerca de 70 assentamentos paraibanos fornecem alimentos ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade de Compra com Doação Simultânea, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab/PB). O PAA é uma forma de incentivar ainda mais a produção nos assentamentos da reforma agrária e fornecer alimentos de boa qualidade para a população de asilos, abrigos, creches e insituições filantrópicas.

No caso do assentamento Jaracateá, onde Rogério Oliveira vive com a família, parte da produção também é vendida pela internet para residências em João Pessoa. Ele conta que desenvolveu com a cooperativa um sistema de pedidos pela internet e entrega em domicílio dos alimentos produzidos no assentamento. “Além da participação nas feiras, entregamos os alimentos nas casas. Vivemos em um cenário em que a cidade depende diretamente da produção agrícola de assentados”, completou.
Casado com Alexsandra, uma das colegas de Pronera que se formou em pedagogia, e ao lado dos pais e da irmã, Rogério Leandro de Oliveira garante que a qualificação técnica e a busca por mais conhecimento foi fundamental na evolução da produção agrícola na comunidade em que vive.
“Percebo que minha formação, sendo filho de assentados, me deu a oportunidade de voltar a ajudar, continuar produzindo com meus pais, prestando assessoria técnica a outros assentamentos. Essa é a nossa saída, juntar o saber teórico, buscando nas academias, e aliar isso ao trabalho e a vivência dos agricultores. É dessa forma que vamos ajudar a acabar com o preconceito e gerar um impacto ainda maior nas cidades”, concluiu.
Reforma agrária na Paraíba
De acordo o Incra, a Paraíba contava até maio de 2016 com 308 assentamentos. A maior parte dos deles, 191, localizados na região conhecida como semiárido paraibano. Aproximadamente 14.529 famílias vivem nesses assentamentos, que correspondem a uma área  288.942 hectares, equivalente a aproximadamente 5,11% do território da Paraíba.

Fonte:G1
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