Encontro promove troca de livros e amplia acesso à leitura na Paraíba

Troca de livros e de amigos, de conversas e de risadas. O 'Encontro das Traças', projeto idealizado  pelo escritor André Ricardo, é uma troca de livros entre pessoas apaixonadas pela leitura. Na prática, muito mais do que isso. Tem a ver com a valorização da literatura, define a escritora Maria Valéria Rezende. Ou com uma convivência mais próxima entre escritores e leitores, como explica o escritor Roberto Menezes.
A reunião de leitores apaixonados acontece desde 2013, inicialmente como um encontro informal, agora como um projeto de 10 edições financiado pelo Ministério da Cultura (Minc). O próximo encontro, que já começa a finalizar as edições previstas pelo edital do Minc, vai acontecer na terça-feira (30), na Budega Arte e Café, no bairro dos Bancários. 
No início, a ajuda dos amigos foi fundamental. As redes sociais ajudaram na divulgação e um barzinho aconchegante era o palco para mais uma troca de livros. Dividido em duas fases, antes e depois do projeto ser aprovado no edital de fomento à literatura do Minc, o encontro recebeu na sua primeira edição aproximadamente dez pessoas. “No segundo chegamos a trinta e depois conseguimos chegar até a cinquenta pessoas”, conta André.
“Ele começou informalmente, em um café. O pessoal se encontrava em alguns bares, cafés, nesses lugares que promovem mais encontros ligados a literatura”, explica Valeska Asfora, uma das organizadoras do Encontro das Traças. Em dois anos, mais de 150 livros já foram trocados. De acordo com André, a programação vai contar com uma feira de livros, além da presença de alguns autores e editores com livros e revistas que estarão a venda.
O encontro das traças é uma resposta para tornar o livro acessível, para trocar dicas entre as pessoas, esse tipo de movimento é o que vai gerar mais leitores"
André Ricardo
Escritores como Lau Siqueira, Lima de Rizzi, Maria Valéria Rezende, passaram pelo 'Encontro das Traças' para deixar poesia e encanto pelas letras. O evento no seu modo completo, que passou a funcionar melhor depois de ser aprovado no edital do Minc, tem sempre a pretensão de fazer lançamentos de livros, bate bato com escritores, exibição de alguns curtas, filmes, documentários sobre literatura e, claro, a troca de livros, a atração principal da noite.
Toda a preparação vai depender do local onde vai acontecer o encontro. “É um momento de rever os amigos e fazer novas amizades no ramo da literatura”, conta Valeska.
'Traças' são todos 'viciados em livro'
André Ricardo hoje tem 47 anos e é formado em Letras. Com cinco livros publicados, de poesias, contos e também infantis, o autor escreveu o seu primeiro livro em 1997. Nessa época, não tinha ainda a pretensão de tornar o acesso ao livro um caminho fácil e, melhor, de graça. Com o tempo passando e a partir de contatos mais próximos com outros autores, surgiu a necessidade de unir a militância com a literatura.
Para André e Valeska, os dois organizadores, o evento vai além da divulgação do incentivo à leitura. Uma mesa com os livros a serem trocados e um clima próximo entre as pessoas é a imagem inicial do 'Encontro das Traças'. Mas recitais, lançamentos e encontros também fazem parte do cardápio do evento. “Assim a gente vai abrindo possibilidades, tem gente que termina fazendo trocas e amigos também”, comenta André.
A figura de uma 'traça' marca o banner de entrada e de divulgação nas redes sociais. Associa-se com as pessoas que encontram nos livros a ansiedade de ‘devorá-lo’. “A traça representa a pessoa viciada em leitura, que não deixa um livro mofando em casa”, André explica. “O encontro das traças é uma resposta para tornar o livro acessível, para trocar dicas entre as pessoas, esse tipo de movimento é o que vai gerar mais leitores”, completa.

Evento quer multiplicar leitores
Maria Valéria Rezende abriu as portas de casa para receber as 'traças'. Para incentivar a literatura, a escritora acredita que são ações como essa que podem gerar a multiplicação de leitores. “Essa prática possibilita que as pessoas ampliem sua possibilidade de leitura, independente do poder aquisitivo. Eu posso ter condições de comprar cinco livres e eles vão se multiplicando. Então eu posso ler centenas de livros”, comenta a escritora.
Quem escreve e vive das palavras há algum tempo só consegue se encantar com o 'Encontro das Traças'. Independente da quantidade de pessoas que estejam ou não presentes no evento, “a prática de fazer rodar os livros é muito saudável”, diz Valéria.
Acumular livros significa matar livros, porque um livro fechado numa estante é só papel e tinta, não tem mais livro"
Maria Valéria Rezende
Uma estante de livros é muito agradável aos olhos dos apaixonantes pela leitura. O perigo, segundo Valéria, é o acúmulo. “Acumular livros significa matar livros, porque um livro fechado numa estante é só papel e tinta, não tem mais livro”, explica.
O escritor Roberto Menezes confessa ter faltado a um só encontro. É visitante fiel, não perde uma troca de livros. Nessa experiência vasta com as traças, já viu pessoas disputarem um livro, outras negociando a troca e até uma competição saudável para ver quem iria ficar com determinado livro. Além disso, nos encontros foi possível conhecer novos autores, assim como também se apresentar a novas pessoas.
Bem de primeira necessidade
“A maioria dos eventos literários vem para somar. A literatura é sempre esquecida do ponto de vista do poder público, não há dinheiro pra literatura. Fazer literatura na Paraíba é um ato de guerrilha. É fazer mexer, relacionar leitores, escritores, sem esperar que tenha um evento para que as coisas funcionam”, ressalta. Roberto acredita que o segredo do 'Encontro das Traças' está na simplicidade. “É por isso que funciona”, diz. “Não é um evento de status social, as pessoas vão para trocar livros”, completa.
Maria Valéria, que veio para a Paraíba em 1972, caracteriza a troca como uma prática nordestina. Atribui ao livro um bem de primeira necessidade, um bem de consumo cotidiano, que a gente compartilha como pode. "Me lembro quando cheguei para viver no Nordeste, tinha no interior um vendedor de literatura de cordel, na barraca ao lado do feijão, ou seja, literatura no seu lugar certo, no lugar do bem de primeira necessidade. Essa coisa da troca que tem a ver com a feira, é algo muito nosso. Queria que isso se multiplicasse”, reflete.
* Sob a supervisão de Aline Oliveira

 Fonte:G1
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