Com 'moda exclusiva', negócio de brechós cresce na crise na Paraíba

Resiste há 15 anos em um casarão histórico cravado na Praça Venância Neiva, conhecida popularmente como Pavilhão do Chá, no Centro de João Pessoa, um brechó que não é somente um ponto alternativo ao comércio de roupas das grandes lojas de departamento, mas uma galeria de arte com mais de 3 mil brinquedos, alguns com mais de 50 anos, e um novo conceito: moda sem gênero. “O nosso foco é a personalidade”, avisa Fábio Rodrigues, dono do brechó.
Fábio afirma que aumentou o número de pessoas que buscam roupas que fogem do padrão, do conceito básico. O dono do Brechó, que é natural de Manaus, no Amazonas, e tem 33 anos, as vendas aumentaram em 30% justamente no período de crise entre final de 2015 e o primeiro semestre de 2016. Ele explica que a procura da própria identidade, de roupas que expressem a personalidade, é o que move as pessoas que vão ao seu brechó.

“Nosso conceito é moda sem gênero e sem frescura. Vestimos a personalidade e não o gênero. E as pessoas que vêm até nós sabem que aqui vão conseguir montar um look que façam delas únicas. A maioria das nossas peças são voltadas para a moda vintage, até por acreditar na força histórica de cada roupa, mas nossa roupa é atemporal”, comentou. Partindo da ideia de comercializar roupas usadas, mas com estilo, como Fábio Rodrigues, outras pessoas têm investido em brechós físicos e virtuais.
O diretor do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas da Paraíba (Sebrae-PB), Joacir de Araújo Souto, comentou que o período econômico de instabilidade e crescimento do desemprego tem forçado às pessoas a encontrarem alternativas para driblar as dificuldades financeiras. Ele avalia que o investimento em brechós, ou no comércio de roupas usadas pela internet, tem se mostrado como uma oportunidade.

“Em tempos de crise como o que passamos, segmentos como este encontram grandes oportunidades. É segmento ainda muito amador, no que diz respeito às formas tradicionais de gerenciamento, planejamento e controle. Muitos dos negócios que se sobressaem neste ramo, aqui em João Pessoa e em outros estados, utilizam as redes sociais, principalmente o Instagram e o Facebook, como principais canais de vendas e de atração de novos clientes”, explicou.

O investimento na divulgação nas redes sociais é uma das ferramentas usadas por Fábio Rodrigues para apresentar aos seus clientes as novas coleções da loja. “Quando volto dos garimpos [de roupas] em outros estados, montamos os looks nas manequins e soltamos nas redes sociais. É incrível! No dia seguinte, a loja fica cheia de gente querendo saber quais são as novidades”, relatou.
Fábio Rodrigues comentou que além da divulgação das peças, investe também em ensaios fotográficos de editoriais de moda que mostrem a cara da loja. “A nossa ideia é que as pessoas conheçam a ideologia que está por trás do brechó. Porque não trabalhamos diretamente com as tendências da moda, aqui nós damos a oportunidade do cliente montar seu próprio visual. A tendência é feita por ele mesmo”, completou.
Redes sociais como ferramenta
O especialista em Mídias Digitais Ricardo Oliveira destaca que a divulgação nas redes sociais é um diferencial para que a empresa abra um diálogo com seus clientes, uma ferramenta fundamental na aproximação da marca com o público. Ele destaca que nesse espaço, o que deve predominar é o chamado marketing de conteúdo.

“Os empresários têm que ir em busca de conteúdos específicos para as redes sociais. As pessoas que usam esse espaço estão interessadas em conteúdo, não necessariamente em produtos. É preciso que seja feito esse planejamento, para que o conteúdo esteja alinhado com a marca e que desperte o interesse do cliente. No caso de Fábio, ele buscou focar em um ensaio que aproxima as pessoas que se interessam por moda para chamar atenção ao produto”, explicou.
Ricardo Oliveira acrescenta ainda que as redes sociais são uma forma rápida e prática de divulgação. “Esse nicho de mercado, de venda de roupas usadas, envolve vários tipos de pessoas. Muitas já usavam o meio [redes sociais] e depois passam a usar de uma maneira que formaliza o negócio. A depender do crescimento do negócio, passam a usar melhor o meio”, completou. Para o especialista, é importante para qualquer empreendedor reconhecer a importância de estar presente no meio digital.

Consumo consciente e sustentável
A maior parte das peças vendidas em brechós são provenientes de lojas maiores e dos mais variados estilos. Roupas que foram confeccionadas em uma larga escala ao longo dos anos e que vão remanescendo em pontos alternativos, sejam eles virtuais ou físicos. Apenas uma pequena parcela corresponde a produções caseiras de costureiras autônomas ou de designers de moda, como Fábio Rodrigues explica.
“A maioria dos brechós são pontos de repasse de roupas, peças que fizeram parte de um mercado maior, que seguiam uma determinada tendência na época, e que se tornam atemporais. No caso do nosso brechó, nós temos o trabalho também de customização, que é um diferencial. Se em um brechó comum é difícil encontrar um peça idêntica às que são vistas na rua, sair daqui com uma roupa igual às das outras pessoas é impossível, nossas roupas são exclusivas”, anunciou o microempresário. Fábio Rodrigues complementa ainda que as roupas vendidas em brechós já foram tributadas, fato que ajuda no planejamento do negócio.
Além do preço e do valor histórico, o consumo de moda a partir de brechós ajuda no combate do descarte de roupas, uma medida que gera um impacto direto na produção de lixo. “Não temos dados atualizados referentes ao Brasil, mas temos estimativas de que na Europa são descartadas mais de cinco toneladas de roupas boas por ano. Ao termos o trabalho de organizar e reutilizar essas peças, estamos melhorando diretamente o impacto ambiental que o descarte de resíduos gera”, comentou.

Preconceito e pouco apoio
A ideia de pagar para usar uma roupa usada, por si, cria uma resistência. Fábio Rodrigues lembra que no início do brechó, em meados de 2001, teve muita dificuldade de comercializar suas roupas por conta do preconceito. Ele conta que as pessoas, quando não conheciam o conceito e a ideologia por trás de cada peça, relutavam em pegar R$ 30. “Agora tenho peças que chegam a até R$ 400 e que têm saída. As pessoas estão começando a enxergar o trabalho dos brechós com outros olhos”.
Em uma das suas viagens para aquisição de novas peças para a loja, no trabalho que os profissionais da área chamam de garimpo, em alusão ao fato de pinçar as roupas em feiras e outros brechós que combinam com a sua marca, Fábio relata que conheceu um brechó no Rio de Janeiro que só vende roupas de grife. “Roupa de gente rica que faliu e que passou a ter uma novo sentido no mercado”, explica.
Competindo diretamente com lojas de grife ou de departamentos, os brechós contam com pouco apoio de bancos e financeiras para investir e expandir o negócio. Fato que pode ter uma relação direta com a informalidade do comércio, como destaca o técnico do Sebrae-PB Joacir de Araújo Souto. Conforme dados do órgão, não houve procura para o serviço de assessoria por parte de microempreendedores donos de brechó nos últimos dois anos.
“Quem atua neste segmento, o faz de forma mais empírica, ou seja, eles estão envolvidos no operacional da coisa mesmo, não restando tempo para planejar e organizar de forma mais efetiva seus negócios”, detalhou o diretor do Sebrae. Especificamente no caso de Fábio, ele até chegou a procurar suporte para reformar a loja, mas por três vezes esbarrou em burocracia.
Por funcionar em um casarão que é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Estado da Paraíba (Iphaep), qualquer reforma precisa respeitar a arquitetura histórica do prédio. “A minha ideia é reformar, ampliar, até porque o local está pequeno para expor os produtos e atender muitos clientes ao mesmo tempo. Não pretendo mudar de local. Estamos em uma área central de João Pessoa, carregada de história e significado. Eu não quero que seja somente um brechó, quero que aqui seja uma galeria, um espaço de vanguarda, de arte”, avaliou Fábio Rodrigues.
Seja no fato de não segmentar as roupas pelo gênero, no exemplo do brechó de Fábio Rodrigues, seja no atrevimento de competir diretamente em um mercado da moda onde milhões são investidos por grandes marcas em tendências e designers que atraiam o consumo, há inegavelmente um espírito revolucionário naqueles que gerem um brechó.
“Temos que quebrar esse preconceito com os brechós. É possível estar bem vestido, expressando sua personalidade, com roupas compradas em brechós. Essa é nossa forma de burlar o sistema”, decreta Fábio Rodrigues.

Fonte:G1
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